sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A velha casa (Mundo dos sonhos)

Caminhei por várias horas numa escuridão sem fim, um vazio total. Parei na frente de uma enorme casa de madeira. Parecia bem antiga. Havia uma cerca natural daquelas altas com arbustos, era possível ver a parte de dentro do quintal através de uns espaços. Era um jardim enorme cheio de plantas e árvores retorcidas, pequenos postes de luz iluminavam um caminho que seguia até a entrada da casa que ficava bem ao fundo. Já era tarde, a noite escura sem lua ou estrelas. Um senhor me esperava no portão - deveria ter por volta de uns 60, 70 anos, vestia um casaco cinza, calça preta e usava um chapéu preto surrado - ele me olhava e dizia que estava me esperando para entrarmos. Não sabia exatamente o porquê, mas tinha esta sensação de desconforto e medo.

 Assim que me aproximei do portão todas as luzes se apagaram, o lugar ficou numa total escuridão, o velho me olhou com uma cara de desaprovação e disse: Já não é mais seguro - neste momento um relâmpago iluminou brevemente o interior do jardim, mostrando de relance o vulto do que parecia uma criatura caminhando em quatro patas por entre as árvores, parecia um cão, mas de estatura maior, cor acinzentada, sem pelos. O velho fechou o portão e me disse para dar a volta. Fui caminhando ao redor da casa, era tudo escuro, procurei uma rua para fugir daquele lugar, mas não tinha, era somente a velha casa e um escuridão sem fim ao redor, como um grande vazio, e na parte de trás o mar, imenso e negro. Assim que virei, no outro lado da velha casa, o velho já estava me esperando em uma outra entrada, abriu o portão e apontou para que eu entrasse. 

As luzes retornaram fracas, fomos seguindo pelo caminho em meia luz, chegando mais próximo da casa notei que a parte onde estavam as árvores tinha uma cerca, senti um alívio por perceber que, seja lá o que fosse aquela criatura que avistei quando as luzes se foram, ela estaria do outro lado da cerca... No flash de mais um relâmpago a enorme criatura pula em cima de mim me levando ao chão. Era horrível, o interior de sua cabeça estava à mostra, como se o focinho tivesse sido rasgado e puxado até a parte de trás, cerrado, sem os dentes, deixando somente metade da língua - que também havia sido cortada - para fora, e parte do crânio à mostra. Não tinha os olhos, e no crânio revestido por uma carne escura haviam dois orifícios, que pareciam ser narinas, ele fungava forte, provavelmente era o único dos sentidos que lhe dava alguma orientação.O velho chamou a criatura calmamente como se fosse um animal de estimação e comentou me olhando: -  Acho que ele gosta de você – o animal pulava, e dos orifícios espirrava um suco negro e grosso. Afastei-me correndo em direção à porta de entrada da casa, o velho me seguiu, e o animal desapareceu na escuridão entre os arbusto. Dentro da casa paramos no primeiro cômodo, que parecia uma cozinha. Uma senhora estava ali em pé, mexendo em alguns potes, ela me olhou calmamente e murmurou algumas palavras que não fizeram sentido algum para mim, olhou para o velho e nos mandou prosseguir com a cabeça. 
No cômodo seguinte vi uma criança dormindo em um sofá, estava muito escuro o interior da casa, não dava para ver muita coisa. Logo no quarto à frente, com a porta aberta, havia um jovem, ele estava mexendo em um tanque com água, parecia quente, pois levantava um vapor. Ele colocou duas placas de um material que era semelhante ao gesso na água, nos aproximamos para ver, e quando ele retirou as placas da água elas foram tomando um tom avermelhado e começaram a brotar rapidamente uns pequenos crustáceos, eles se multiplicavam e iam cobrindo todo braço do rapaz.


O velho sorriu, e o rapaz que aparentava ter uns 20 anos, cabelo escuro e pele morena, também parecia satisfeito com a o experimento. E então, eu acordei.


A Visita


Natalie terminava de guardar a louça do jantar, e foi levar o lixo para fora. A noite fria e nublada era de um silencio total. Colocou o lixo no latão e ia em direção à porta, quando sentiu um calafrio lhe subir a espinha, uma sensação estranha lhe invadiu, não tinha certeza, mas era como se alguém estivesse observando seus movimentos. Olhou rapidamente em volta, mas a forte neblina cobria tudo, não dava para ver nem o outro lado da rua, correu para dentro e trancou a porta. O relógio pendurado na parede da cozinha marcava 22:20 – lembrou que seus pais haviam saído, avisaram que provavelmente ficariam na casa da tia, depois da festa - ela insistiu que não teria problema em ficar sozinha, se negando a ir junto, dizia estar cansada, a verdade é que não gostava muito dessas festas de família, sentiu agora um leve arrependimento. Apagou as luzes da cozinha e subiu em direção ao banheiro, a sensação estranha ainda lhe acompanhava, acendeu a luz do banheiro e ao olhar no espelho pensou: que idiota, deixando minha imaginação me tomar pelo medo – vou tomar um banho e ir dormir.
Apagou as luzes e foi para o quarto, deixando a porta entreaberta, deitou-se, e com o cobertor se cobriu até o pescoço. Rolou de um lado para o outro, e por fim, virou-se para a parede de costas para o corredor e fechou os olhos.  O Silencio era irritante, fazendo com que começasse a ouvir seu próprio coração, ficou nesta agonia por alguns minutos, e, ao mesmo tempo que se sentia uma idiota por saber que só estava deixando seu medo tomar conta, tinha ainda aquela estranha sensação de que alguém estava lhe observando. Ouviu um barulho de porta se abrir, não quis se virar, pois sabia que seria tomada pelo medo ainda mais, tentou se acalmar buscando memorias boas, mas a sensação estava muito forte, sentia claramente que alguém estava lhe espreitando, virou-se lentamente em direção ao corredor, e através de sua porta entreaberta conseguia ver o quarto que pertencia a sua vó do outro lado do corredor - tinha certeza que estava fechado antes de ir deitar - pois sua avó já não mais morava com eles, havia morrido há uns 3 meses. A porta parecia estar um pouco aberta agora, como estava muito escuro não conseguiu enxergar direito, mas continuou olhando na direção da porta até seus olhos irem se acostumarem com a escuridão. Quando estava começando a se acostumar com o escuro, notou que a porta se abriu mais, e ela viu olhos bem abertos lhe espiando de dentro do quarto, seu pavor foi tão grande que tentou gritar, mas sua voz não saiu, num terror incontrolável ela deu um pulo da cama e correu para fora do quarto, quando olhou para trás antes de descer as escadas viu uma mão pálida abrindo lentamente a porta, e um vulto saiu do quarto gemendo. Ela parou, petrificada, sentia um frio congelante, seus lábios se ressecaram instantaneamente e ela respirava com dificuldade fazendo vapor sair de sua boca.

Na manhã seguinte seu corpo foi encontrado na porta da frente, do lado de fora, totalmente enrijecido pelo frio. Sua mão direita com o indicador erguido, apontava para a janela do quarto de sua avó.

Azyr Maboroshi

A Ponte

Havia uma ponte, era uma ponte normal, mas chamava atenção pela aventura que sua travessia proporcionava. A ponte sempre esteve lá, pessoas iam até ela, mas ninguém queria ficar, de fato. Era apenas uma passagem, ou uma forma de se aventurar. Nunca foi cruzada até o fim, na verdade, todos imaginavam o que poderia ter do outro lado, mas nunca tiveram a coragem.

Alguns procuravam a ponte para fugirem de suas rotinas, outros, quando bebiam demais, achavam interessante se arriscarem em uma aventura ébria, alguns, até passaram um pequeno tempo ali, mas quando sóbrios, percebiam que a ponte poderia ser um lugar perigoso para suas vidas, e com medo de cruzarem até o fim, logo voltavam por seus caminhos normais.

Com o tempo a ponte deixou crescer árvores e galhos que impedem seu acesso. De longe a paisagem parece cativante, mas impenetrável, agora. Nunca descobriram o que havia do outro lado, quais mistérios aquele lugar guardava, qual seria o verdadeiro sentido da ponte, que quimera vivia do outro lado? ...

O tempo fez a ponte enfraquecer, e cada vez fica mais difícil seu acesso. O lugar que persistia além da travessia foi se apagando, como um sonho que não foi alcançado, e com o tempo, deixa de existir.

Logo, o vazio tomou conta de tudo. E o que nunca existiu, não poderá ser lembrado.

Não há lamento. Vazio. Limpo... Livre.

Azyr Maboroshi

Dentes vermelhos

Acordo, meu corpo está pesado, tenho minhas pernas e braços adormecidos. Consigo mover um pouco a cabeça para o lado, sinto-me dolorido, há um forte cheiro de sangue. Minha cabeça está pesada, tento me levantar para tentar ver onde estou. O sol está forte, não consigo ver nada à frente, parece um grande deserto, sem fim. Um pouco mais para trás de onde meu corpo está acorrentado há um pequeno morro, uma abertura, parece uma caverna descendo ao solo.

Tento me mover, é em vão, além da dormência em meus membros, todo o resto do corpo está dolorido, muito dolorido.

Seco, sinto a areia fina penetrando em minha garganta, seco...adormeço novamente.

Não faço ideia de quanto tempo estive desacordado, mas fui puxado do meu sono novamente pela repetição das palavras em melodia: - Noite, leva embora... noite, fome aflora... noite leva embora, noite, antes a aurora...noite leva embora...

A voz é de uma criança, tento ver quem é, mas meus olhos estão embaçados, cheios de areia, e o sol atrapalha a visão... (noite, leva embora, noite afora...)

Há quanto tempo estou aqui? o sol parece estar baixando, vai surgindo na sombra que o morro faz uma pequena figura, parece uma criança sentada no chão. Ele canta enquanto rabisca algo na areia com um graveto (noite, antes a aurora, noite, leva embora...).

Seco...sonolento, tento falar mas minha voz não sai, minha garganta dói...seco...adormecendo. Ouço de longe alguém, não, alguma coisa gritando, um animal em agonia... Dor, sono. Adormeço.

Frio, acordo em dor insuportável, minha mão quente, cheiro de sangue... dor, algo está mordendo minha mão, um animal rosnando, um cachorro? Talvez... não consigo me mover, ele morde ferozmente, sacode meu corpo. A criança não está mais ali, talvez tenha se escondido do animal...onde está?

Fico ali, sendo balançado pelas mordidas, não sei quanto tempo.

O animal para de morder, se afasta em direção a caverna...Dor...seco, sono, dor... Adormeço.

Sol novamente, quanto tempo estou aqui? ...minha mão, não tenho mais minha mão. A melodia, a melodia voltou, a criança voltou...(noite, leva embora, noite...antes a aurora...)

Preciso avisá-lo do animal na caverna, tento levantar, dói, minha mão foi arrancada, consigo mover um pouco a outra, a dormência parece estar passando, esbarro em algo, água respinga. Há uma vasilha com água ao meu lado, jogo minha cabeça dentro...aaahh água...é água...

Consigo limpar meus olhos um pouco. Minha mão, no lugar da minha mão tem uns vermes, não, algum tipo de sanguessuga, estão por toda ferida, sinto aumentar a dormência nesta parte. Então são eles... estavam em meus braços, agora estão somente onde a mão foi arrancada, e nas pernas... Dormente.

Não tenho forças para tirar as sanguessugas, olho para a criança, não consigo ver direito. O sol atrapalha, mas ele continua ali, sentado, rabiscando algo no chão...cantando...(noite leva embora, noite, fome aflora...)

Preciso ajudá-lo quando o animal voltar, tento me levantar e caio, minha perna, não tenho mais uma das pernas na altura do joelho. A criança me ouviu caindo, pela primeira vez ele para de rabiscar e cantar, bate com o graveto em alguma coisa...meu sapato...meu pé?, está ao lado dele, o pedaço da minha perna...ele olha para mim e sorri. Dentes vermelhos.

Azyr Maboroshi

O Vento


O vento era livre, soprava em todas as direções, passava pelos mais lindos mares, bosques, vales, florestas e montanhas...

Era adorado e admirado por todos nos lugares que visitava, levando música em seus assovios, varrendo para longe a tristeza das pessoas.

Certa vez o vento foi convidado para uma festa na floresta. Lá, ele conheceu um lago e um barco que moravam juntos. A noite foi muito agradável, eles conversaram e contaram várias estórias. O lago era tranqüilo, mas cheio de sonhos, queria ser um rio e correr livre pelo mundo - construindo suas corredeiras e quedas d’água. O barco navegava nele, e vivia com ele seus sonhos, mas volta e meia sentia-se limitado por ter que permanecer somente naquelas águas, deixando de ter seus próprios destinos. O vento, forte e cheio de vida, contava de como voava por ai, conhecendo vários lugares e assoviando seus cantos por onde quisesse.  

Eles se tornaram grandes amigos, e sempre que podia o vento soprava na floresta para passar um tempo junto deles, contando suas estórias. O barco ficava muito feliz quando o lago estava agitado, cheio, e ele podia ir de um lado para outro, onde se sentia um pouco mais livre, mas quando as águas se acalmavam, e ele se via novamente sozinho no lago, acabava caindo em tristeza.

Com o passar do tempo o barco começou a comparar o lago com o vento, e pensava em como gostaria de poder sair com o vento, voando livre e indo para vários lugares, sem ter que ficar ali, preso naquelas águas.

Quanto mais o vento soprava na floresta, mais agitado o barco ficava, querendo fugir das águas do lago. Aconteceu porém, que o vento, na verdade, estava cansado de voar sem direção, e começou a admirar o lago - que mesmo parado ali, lutava e sonhava em construir suas corredeiras e se tornar um rio. O vento queria poder parar e ficar ao lado do lago, ajudando ele em seu destino. E acabou se apaixonando.

O lago, sem pensar, deu esperanças ao vento, de que talvez, um dia, pudessem seguir juntos, quando este virasse um rio.

O vento se encheu de sonhos, e começou a se segurar, reduzindo drasticamente seus trajetos. Limitava-se em visitar a floresta, seguindo o lago que se expandia pouco a pouco, formando suas quedas d’água.

Por fim, em uma das aberturas que o lago criou, o barco seguiu seu rumo, abandonando o lago e indo em direção ao mar, sem a ajuda do vento.

O vento, pensando que talvez agora pudesse acompanhar o lago que se transformava em rio, foi tentar segui-lo, porém, assim que as correntezas se abriram e o lago se tornou rio, este seguiu seu caminho, deixando o vento pra trás.

Azyr Maboroshi