Um desconforto - aquela sensação de que nada está fazendo sentido.
Liga a TV, mas nada chama atenção. Desliga. Liga o som baixinho e vai até a janela. Uma chuva fina cai. Desliga o som, apaga as luzes e vai para o quarto tentar dormir.
No quarto escuro em silencio, depois de algum tempo virando-se de um lado para o outro, tentando pegar no sono, ainda envolto em pensamentos desconexos - escuta um barulho de água. Olha para a janela para ver se ainda está chovendo, mas não. O barulho é suave, mas contínuo. Um som de água em movimento.
Levanta-se para ir até a cozinha, e passando pelo espelho encostado na parede vê algo mover-se. Aproxima-se e vê que é dali o barulho de água.
Levanta-se para ir até a cozinha, e passando pelo espelho encostado na parede vê algo mover-se. Aproxima-se e vê que é dali o barulho de água.
Senta-se no chão, de frente para o espelho, com as luzes ainda apagadas fica observando o movimento - é como se tivesse vida, a lâmina de vidro move-se como água, e é possível ver o mesmo quarto do outro lado.
Encosta o dedo, sente apenas uma sensação de frio, atravessa a mão, está gelado do outro lado. Há uma barreira, pode visualizar, mas não consegue atravessar por completo. A mão alcança até uma parte. O mesmo quarto. Retira a mão e o movimento para. Do outro lado do espelho começa a ver sua própria imagem, também sentado da mesma maneira, fitando-o. Mas este ser parece diferente, há um ar de confiança, controle, superioridade. Ao contrário dele, que, perdido em confusão, parece não conseguir controlar seus sentimentos.
Encosta o dedo, sente apenas uma sensação de frio, atravessa a mão, está gelado do outro lado. Há uma barreira, pode visualizar, mas não consegue atravessar por completo. A mão alcança até uma parte. O mesmo quarto. Retira a mão e o movimento para. Do outro lado do espelho começa a ver sua própria imagem, também sentado da mesma maneira, fitando-o. Mas este ser parece diferente, há um ar de confiança, controle, superioridade. Ao contrário dele, que, perdido em confusão, parece não conseguir controlar seus sentimentos.
Ao redor, por todo espaço do quarto, do outro lado do espelho, seus pensamentos parecem estar passando em flashes, como um sonho. Seu outro eu aponta para algumas imagens, como se querendo mostrar algo – Vê imagens da pessoa que vem tomando boa parte dos seus pensamentos nos últimos dias, são eventos que copiam o real, mas acentuam seus medos – em uma das imagens estão sentados conversando, mas a sensação é de que algo ruim vai acontecer, a pessoa levanta-se e vai embora, sem falar nada. Fica sem saber se espera ou se vai embora também.
Outras imagens mostram repetidos momentos de sua vida, onde sente-se perdido, e decisões erradas foram tomadas. Sente uma forte angústia, quer que as imagens parem, mas seu outro eu continua a mostrá-las, ele tenta levantar-se para não olhar mais, a mão atravessa o espelho e o segura forte, olha em seus olhos com desaprovação, a mão é gelada, está envolto em sombras, segurando seu braço torna a apontar para as imagens do outro lado. Ficou assim, alguns minutos - de sensação eterna - acompanhando tudo que o outro mostrava, sentido novamente as mesmas sensações ruins de todos os momentos em que se sentiu triste, sozinho, com medo, decepcionado. Quase em transe, de tantas emoções e pensamentos revividos, ele finalmente começa a entender. Fecha os olhos, e, abrindo lentamente, vê seu outro eu sorrindo. As imagens começam a sumir no quarto do outro lado, vão ficando apenas espaços vazios. Diversas pessoas sem rosto, envoltas em luzes vão aparecendo por trás do seu outro eu. Eles vem caminhando lentamente, todos acenando para ele. Um deles pára ao seu lado, e coloca a mão em seu ombro - mesmo não conseguindo ver o rosto ele sente os sorrisos.
Não está mais frio. Ele se levanta, vai até a cozinha, toma um copo de água, volta para o quarto e deita-se para dormir.

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