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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Terceira Esfera

Em terras distantes, seguindo por todo caminho interminável sentido oeste do fim do mundo, depois de atravessar mares, desertos e geleiras, no alto de uma enorme plataforma que se formou por partes de uma montanha despedaçada, uma gigantesca forma cilíndrica, uma torre natural que sobe até as nuvens. Lá, no alto, dentro de antigas ruínas rodeadas por uma densa floresta, em uma construção de pedras, dentro de uma pequena sala que tem acesso somente por uma passagem secreta, sobre uma pequena mesa entalhada no tronco de uma árvore antiga, há uma pequena caixa de metal. Dentro desta caixa há uma esfera, dentro desta  esfera há um novo universo. Neste universo existe uma galáxia e um sistema de planetas, onde em um destes planetas há uma vasta região isolada em terras distantes, seguindo por todo caminho interminável, sentido oeste do fim do mundo, depois de atravessar mares, desertos e geleiras, no alto de uma enorme plataforma que se formou por partes de uma montanha despedaçada, uma gigantesca forma cilíndrica, uma torre natural que sobe até as nuvens. Lá, no alto, dentro de antigas ruínas rodeadas por uma densa floresta, em uma construção de pedras, dentro de uma pequena sala que tem acesso somente por uma passagem secreta, sobre uma pequena mesa entalhada no tronco de uma árvore antiga, há uma pequena caixa de metal. Dentro desta caixa há uma segunda esfera, dentro desta esfera há um universo. Neste universo existe uma galáxia e um sistema de planetas, onde em um destes planetas há uma vasta região de terras distantes, seguindo por todo caminho interminável, sentido oeste do fim do mundo, depois de atravessar mares, desertos e geleiras, no alto de uma enorme plataforma que se formou por partes de uma montanha despedaçada, uma gigantesca forma cilíndrica, uma torre natural que sobe até as nuvens. Lá, no alto, dentro de antigas ruínas rodeadas por uma densa floresta, em uma construção de pedras, dentro de uma pequena sala que tem acesso somente por uma passagem secreta, sobre uma pequena mesa entalhada no tronco de uma árvore antiga, há uma pequena caixa de metal. Dentro desta caixa há uma esfera, dentro desta terceira esfera existe a resposta. Mas ela não está lá, ainda, porque a pergunta nunca foi feita.


Azyr Maboroshi

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O infindável entendimento do vago

Sentado à sombra da grande árvore, fitava a longa e batida estrada que vinha percorrendo. 

Parado ali, envolto em seus pensamentos, sentiu finalmente o cansaço lhe atingir. Foram incontáveis dias de luta em meio aos obstáculos de sua jornada; E ali, agora, sentado sob a árvore, ergueu seu olhar para o céu, e sentindo os raios de sol que atravessavam suavemente por entre os galhos e folhas, atingirem sua face, ele, então, percebeu seu erro.

Durante todo este tempo ele caminhou em vão procurando pela certeza, procurando por uma explicação, por verdades certas nos locais errados.
A exatidão e determinação que procurou com tanta avidez, eram, na verdade, anomalias em meio a real beleza do vago.

O implícito, o indeterminado, eram as verdadeiras composições de sua vida. Eram estes detalhes imprecisos que construíam tudo em sua volta. Era onde sua imaginação e percepção contribuíam para a criação de seu mundo, que, somente com meticulosa e verdadeira atenção e dedicação era perceptível.

Ele sorriu, e largando todos os pertences que carregava, seguiu sem rumo, criando o mundo em sua mente.

O exato era agora a sobra de sua imaginação.

Azyr Maboroshi

A Visita


Natalie terminava de guardar a louça do jantar, e foi levar o lixo para fora. A noite fria e nublada era de um silencio total. Colocou o lixo no latão e ia em direção à porta, quando sentiu um calafrio lhe subir a espinha, uma sensação estranha lhe invadiu, não tinha certeza, mas era como se alguém estivesse observando seus movimentos. Olhou rapidamente em volta, mas a forte neblina cobria tudo, não dava para ver nem o outro lado da rua, correu para dentro e trancou a porta. O relógio pendurado na parede da cozinha marcava 22:20 – lembrou que seus pais haviam saído, avisaram que provavelmente ficariam na casa da tia, depois da festa - ela insistiu que não teria problema em ficar sozinha, se negando a ir junto, dizia estar cansada, a verdade é que não gostava muito dessas festas de família, sentiu agora um leve arrependimento. Apagou as luzes da cozinha e subiu em direção ao banheiro, a sensação estranha ainda lhe acompanhava, acendeu a luz do banheiro e ao olhar no espelho pensou: que idiota, deixando minha imaginação me tomar pelo medo – vou tomar um banho e ir dormir.
Apagou as luzes e foi para o quarto, deixando a porta entreaberta, deitou-se, e com o cobertor se cobriu até o pescoço. Rolou de um lado para o outro, e por fim, virou-se para a parede de costas para o corredor e fechou os olhos.  O Silencio era irritante, fazendo com que começasse a ouvir seu próprio coração, ficou nesta agonia por alguns minutos, e, ao mesmo tempo que se sentia uma idiota por saber que só estava deixando seu medo tomar conta, tinha ainda aquela estranha sensação de que alguém estava lhe observando. Ouviu um barulho de porta se abrir, não quis se virar, pois sabia que seria tomada pelo medo ainda mais, tentou se acalmar buscando memorias boas, mas a sensação estava muito forte, sentia claramente que alguém estava lhe espreitando, virou-se lentamente em direção ao corredor, e através de sua porta entreaberta conseguia ver o quarto que pertencia a sua vó do outro lado do corredor - tinha certeza que estava fechado antes de ir deitar - pois sua avó já não mais morava com eles, havia morrido há uns 3 meses. A porta parecia estar um pouco aberta agora, como estava muito escuro não conseguiu enxergar direito, mas continuou olhando na direção da porta até seus olhos irem se acostumarem com a escuridão. Quando estava começando a se acostumar com o escuro, notou que a porta se abriu mais, e ela viu olhos bem abertos lhe espiando de dentro do quarto, seu pavor foi tão grande que tentou gritar, mas sua voz não saiu, num terror incontrolável ela deu um pulo da cama e correu para fora do quarto, quando olhou para trás antes de descer as escadas viu uma mão pálida abrindo lentamente a porta, e um vulto saiu do quarto gemendo. Ela parou, petrificada, sentia um frio congelante, seus lábios se ressecaram instantaneamente e ela respirava com dificuldade fazendo vapor sair de sua boca.

Na manhã seguinte seu corpo foi encontrado na porta da frente, do lado de fora, totalmente enrijecido pelo frio. Sua mão direita com o indicador erguido, apontava para a janela do quarto de sua avó.

Azyr Maboroshi

Dentes vermelhos

Acordo, meu corpo está pesado, tenho minhas pernas e braços adormecidos. Consigo mover um pouco a cabeça para o lado, sinto-me dolorido, há um forte cheiro de sangue. Minha cabeça está pesada, tento me levantar para tentar ver onde estou. O sol está forte, não consigo ver nada à frente, parece um grande deserto, sem fim. Um pouco mais para trás de onde meu corpo está acorrentado há um pequeno morro, uma abertura, parece uma caverna descendo ao solo.

Tento me mover, é em vão, além da dormência em meus membros, todo o resto do corpo está dolorido, muito dolorido.

Seco, sinto a areia fina penetrando em minha garganta, seco...adormeço novamente.

Não faço ideia de quanto tempo estive desacordado, mas fui puxado do meu sono novamente pela repetição das palavras em melodia: - Noite, leva embora... noite, fome aflora... noite leva embora, noite, antes a aurora...noite leva embora...

A voz é de uma criança, tento ver quem é, mas meus olhos estão embaçados, cheios de areia, e o sol atrapalha a visão... (noite, leva embora, noite afora...)

Há quanto tempo estou aqui? o sol parece estar baixando, vai surgindo na sombra que o morro faz uma pequena figura, parece uma criança sentada no chão. Ele canta enquanto rabisca algo na areia com um graveto (noite, antes a aurora, noite, leva embora...).

Seco...sonolento, tento falar mas minha voz não sai, minha garganta dói...seco...adormecendo. Ouço de longe alguém, não, alguma coisa gritando, um animal em agonia... Dor, sono. Adormeço.

Frio, acordo em dor insuportável, minha mão quente, cheiro de sangue... dor, algo está mordendo minha mão, um animal rosnando, um cachorro? Talvez... não consigo me mover, ele morde ferozmente, sacode meu corpo. A criança não está mais ali, talvez tenha se escondido do animal...onde está?

Fico ali, sendo balançado pelas mordidas, não sei quanto tempo.

O animal para de morder, se afasta em direção a caverna...Dor...seco, sono, dor... Adormeço.

Sol novamente, quanto tempo estou aqui? ...minha mão, não tenho mais minha mão. A melodia, a melodia voltou, a criança voltou...(noite, leva embora, noite...antes a aurora...)

Preciso avisá-lo do animal na caverna, tento levantar, dói, minha mão foi arrancada, consigo mover um pouco a outra, a dormência parece estar passando, esbarro em algo, água respinga. Há uma vasilha com água ao meu lado, jogo minha cabeça dentro...aaahh água...é água...

Consigo limpar meus olhos um pouco. Minha mão, no lugar da minha mão tem uns vermes, não, algum tipo de sanguessuga, estão por toda ferida, sinto aumentar a dormência nesta parte. Então são eles... estavam em meus braços, agora estão somente onde a mão foi arrancada, e nas pernas... Dormente.

Não tenho forças para tirar as sanguessugas, olho para a criança, não consigo ver direito. O sol atrapalha, mas ele continua ali, sentado, rabiscando algo no chão...cantando...(noite leva embora, noite, fome aflora...)

Preciso ajudá-lo quando o animal voltar, tento me levantar e caio, minha perna, não tenho mais uma das pernas na altura do joelho. A criança me ouviu caindo, pela primeira vez ele para de rabiscar e cantar, bate com o graveto em alguma coisa...meu sapato...meu pé?, está ao lado dele, o pedaço da minha perna...ele olha para mim e sorri. Dentes vermelhos.

Azyr Maboroshi

O Vento


O vento era livre, soprava em todas as direções, passava pelos mais lindos mares, bosques, vales, florestas e montanhas...

Era adorado e admirado por todos nos lugares que visitava, levando música em seus assovios, varrendo para longe a tristeza das pessoas.

Certa vez o vento foi convidado para uma festa na floresta. Lá, ele conheceu um lago e um barco que moravam juntos. A noite foi muito agradável, eles conversaram e contaram várias estórias. O lago era tranqüilo, mas cheio de sonhos, queria ser um rio e correr livre pelo mundo - construindo suas corredeiras e quedas d’água. O barco navegava nele, e vivia com ele seus sonhos, mas volta e meia sentia-se limitado por ter que permanecer somente naquelas águas, deixando de ter seus próprios destinos. O vento, forte e cheio de vida, contava de como voava por ai, conhecendo vários lugares e assoviando seus cantos por onde quisesse.  

Eles se tornaram grandes amigos, e sempre que podia o vento soprava na floresta para passar um tempo junto deles, contando suas estórias. O barco ficava muito feliz quando o lago estava agitado, cheio, e ele podia ir de um lado para outro, onde se sentia um pouco mais livre, mas quando as águas se acalmavam, e ele se via novamente sozinho no lago, acabava caindo em tristeza.

Com o passar do tempo o barco começou a comparar o lago com o vento, e pensava em como gostaria de poder sair com o vento, voando livre e indo para vários lugares, sem ter que ficar ali, preso naquelas águas.

Quanto mais o vento soprava na floresta, mais agitado o barco ficava, querendo fugir das águas do lago. Aconteceu porém, que o vento, na verdade, estava cansado de voar sem direção, e começou a admirar o lago - que mesmo parado ali, lutava e sonhava em construir suas corredeiras e se tornar um rio. O vento queria poder parar e ficar ao lado do lago, ajudando ele em seu destino. E acabou se apaixonando.

O lago, sem pensar, deu esperanças ao vento, de que talvez, um dia, pudessem seguir juntos, quando este virasse um rio.

O vento se encheu de sonhos, e começou a se segurar, reduzindo drasticamente seus trajetos. Limitava-se em visitar a floresta, seguindo o lago que se expandia pouco a pouco, formando suas quedas d’água.

Por fim, em uma das aberturas que o lago criou, o barco seguiu seu rumo, abandonando o lago e indo em direção ao mar, sem a ajuda do vento.

O vento, pensando que talvez agora pudesse acompanhar o lago que se transformava em rio, foi tentar segui-lo, porém, assim que as correntezas se abriram e o lago se tornou rio, este seguiu seu caminho, deixando o vento pra trás.

Azyr Maboroshi