Acordo, meu corpo está pesado, tenho minhas pernas e braços adormecidos. Consigo mover um pouco a cabeça para o lado, sinto-me dolorido, há um forte cheiro de sangue. Minha cabeça está pesada, tento me levantar para tentar ver onde estou. O sol está forte, não consigo ver nada à frente, parece um grande deserto, sem fim. Um pouco mais para trás de onde meu corpo está acorrentado há um pequeno morro, uma abertura, parece uma caverna descendo ao solo.
Tento me mover, é em vão, além da dormência em meus membros, todo o resto do corpo está dolorido, muito dolorido.
Seco, sinto a areia fina penetrando em minha garganta, seco...adormeço novamente.
Não faço ideia de quanto tempo estive desacordado, mas fui puxado do meu sono novamente pela repetição das palavras em melodia: - Noite, leva embora... noite, fome aflora... noite leva embora, noite, antes a aurora...noite leva embora...
A voz é de uma criança, tento ver quem é, mas meus olhos estão embaçados, cheios de areia, e o sol atrapalha a visão... (noite, leva embora, noite afora...)
Há quanto tempo estou aqui? o sol parece estar baixando, vai surgindo na sombra que o morro faz uma pequena figura, parece uma criança sentada no chão. Ele canta enquanto rabisca algo na areia com um graveto (noite, antes a aurora, noite, leva embora...).
Seco...sonolento, tento falar mas minha voz não sai, minha garganta dói...seco...adormecendo. Ouço de longe alguém, não, alguma coisa gritando, um animal em agonia... Dor, sono. Adormeço.
Frio, acordo em dor insuportável, minha mão quente, cheiro de sangue... dor, algo está mordendo minha mão, um animal rosnando, um cachorro? Talvez... não consigo me mover, ele morde ferozmente, sacode meu corpo. A criança não está mais ali, talvez tenha se escondido do animal...onde está?
Fico ali, sendo balançado pelas mordidas, não sei quanto tempo.
O animal para de morder, se afasta em direção a caverna...Dor...seco, sono, dor... Adormeço.
Sol novamente, quanto tempo estou aqui? ...minha mão, não tenho mais minha mão. A melodia, a melodia voltou, a criança voltou...(noite, leva embora, noite...antes a aurora...)
Preciso avisá-lo do animal na caverna, tento levantar, dói, minha mão foi arrancada, consigo mover um pouco a outra, a dormência parece estar passando, esbarro em algo, água respinga. Há uma vasilha com água ao meu lado, jogo minha cabeça dentro...aaahh água...é água...
Consigo limpar meus olhos um pouco. Minha mão, no lugar da minha mão tem uns vermes, não, algum tipo de sanguessuga, estão por toda ferida, sinto aumentar a dormência nesta parte. Então são eles... estavam em meus braços, agora estão somente onde a mão foi arrancada, e nas pernas... Dormente.
Não tenho forças para tirar as sanguessugas, olho para a criança, não consigo ver direito. O sol atrapalha, mas ele continua ali, sentado, rabiscando algo no chão...cantando...(noite leva embora, noite, fome aflora...)
Preciso ajudá-lo quando o animal voltar, tento me levantar e caio, minha perna, não tenho mais uma das pernas na altura do joelho. A criança me ouviu caindo, pela primeira vez ele para de rabiscar e cantar, bate com o graveto em alguma coisa...meu sapato...meu pé?, está ao lado dele, o pedaço da minha perna...ele olha para mim e sorri. Dentes vermelhos.
Azyr Maboroshi
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