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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Shadow Mirror

Um desconforto - aquela sensação de que nada está fazendo sentido.
Liga a TV, mas nada chama atenção. Desliga. Liga o som baixinho e vai até a janela. Uma chuva fina cai. Desliga o som, apaga as luzes e vai para o quarto tentar dormir.
No quarto escuro em silencio, depois de algum tempo virando-se de um lado para o outro, tentando pegar no sono, ainda envolto em pensamentos desconexos - escuta um barulho de água. Olha para a janela para ver se ainda está chovendo, mas não. O barulho é suave, mas contínuo. Um som de água em movimento.
Levanta-se para ir até a cozinha, e passando pelo espelho encostado na parede vê algo mover-se. Aproxima-se e vê que é dali o barulho de água.
Senta-se no chão, de frente para o espelho, com as luzes ainda apagadas fica observando o movimento - é como se tivesse vida, a lâmina de vidro move-se como água, e é possível ver o mesmo quarto do outro lado.
Encosta o dedo, sente apenas uma sensação de frio, atravessa a mão, está gelado do outro lado. Há uma barreira, pode visualizar, mas não consegue atravessar por completo. A mão alcança até uma parte. O mesmo quarto. Retira a mão e o movimento para. Do outro lado do espelho começa a ver sua própria imagem, também sentado da mesma maneira, fitando-o. Mas este ser parece diferente, há um ar de confiança, controle, superioridade. Ao contrário dele, que, perdido em confusão, parece não conseguir controlar seus sentimentos.
Ao redor, por todo espaço do quarto, do outro lado do espelho, seus pensamentos parecem estar passando em flashes, como um sonho. Seu outro eu aponta para algumas imagens, como se querendo mostrar algo – Vê imagens da pessoa que vem tomando boa parte dos seus pensamentos nos últimos dias, são eventos que copiam o real, mas acentuam seus medos – em uma das imagens estão sentados conversando, mas a sensação é de que algo ruim vai acontecer, a pessoa levanta-se e vai embora, sem falar nada. Fica sem saber se espera ou se vai embora também. 
Outras imagens mostram repetidos momentos de sua vida, onde sente-se perdido, e decisões erradas foram tomadas. Sente uma forte angústia, quer que as imagens parem, mas seu outro eu continua a mostrá-las, ele tenta levantar-se para não olhar mais, a mão atravessa o espelho e o segura forte, olha em seus olhos com desaprovação, a mão é gelada, está envolto em sombras, segurando seu braço torna a apontar para as imagens do outro lado. Ficou assim, alguns minutos - de sensação eterna - acompanhando tudo que o outro mostrava, sentido novamente as mesmas sensações ruins de todos os momentos em que se sentiu triste, sozinho, com medo, decepcionado. Quase em transe, de tantas emoções e pensamentos revividos, ele finalmente começa a entender. Fecha os olhos, e, abrindo lentamente, vê seu outro eu sorrindo. As imagens começam a sumir no quarto do outro lado, vão ficando apenas espaços vazios. Diversas pessoas sem rosto, envoltas em luzes vão aparecendo por trás do seu outro eu. Eles vem caminhando lentamente, todos acenando para ele. Um deles pára ao seu lado, e coloca a mão em seu ombro - mesmo não conseguindo ver o rosto ele sente os sorrisos.
Não está mais frio. Ele se levanta, vai até a cozinha, toma um copo de água, volta para o quarto e deita-se para dormir.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Paroxismo

Ele estava sentado, fitando o nada há mais ou menos 4 horas, imóvel. O rádio estava ligado em volume baixo, a TV também, mas não via nada, era apenas como enfeite de fundo. As melodias ressoavam em sua mente de forma suave, misturando-se aos pensamentos num  emaranhado rítmico. Muito rápidos e desordenados os pensamentos vinham de forma intensa, se fundindo aos sentimentos, ansiedade, angústia, tristeza, medo...

Olhando parecia estar em paz, sentado de forma calma e serena, mas sua mente estava fervilhando de pensamentos e emoções, era como se sua forma física bem como o mundo em sua volta fosse algo distante, não real, sua realidade era aquela explosão de pensamentos que ele tentava organizar de forma coerente, buscando em cada canto de suas memórias situações semelhantes, traçando novos caminhos, buscando listar os detalhes que alteravam todo curso dos acontecimentos. Era uma luta silenciosa.

Seus olhos estavam abertos, mas não era com eles que enxergava. A sala em meia luz, com a estante e a TV, o tapete, a janela entreaberta, o sofá encostado na parede... Eram detalhes praticamente invisíveis. Totalmente introspectivo ele mergulhava em um novo cenário - a sala desaparecia completamente e ele começava a cair velozmente em uma total escuridão, volta e meia sendo golpeado por flashes de sua vida, momentos de dor e sofrimento, caindo velozmente. Vazio. Sentia um frio na barriga, aquela ansiedade monstro lhe corroendo, enquanto luzes fortes começavam a piscar rapidamente, ofuscando sua visão, quase cegando-o, golpeado por mais lembranças, momentos de decepção, solidão...

De repente a velocidade da queda reduz, começa a flutuar lentamente em total escuridão. Depois de tantas lembranças dolorosas um estado de dormência lhe abraça, tudo perde o sentido. De olhos fechados apenas flutua, encolhido, no nada.

Depois de certo tempo – desses sem medida, pois não estava mais no mundo real – ele parece despertar. Lentamente vai abrindo os olhos e vê de longe o chão. Parece menos escuro agora. Ele estica os pés para alcançar o solo e consegue tocar o chão suavemente.

Sumindo lentamente a escuridão vai dando lugar a um corredor com paredes enormes de pedra que vão até o céu, entalhado nestas paredes estão formas humanas gigantescas, sem rosto, mas com mantos cobrindo a cabeça, dá para ver as nuvens acima deles, avermelhadas como num crepúsculo. Os gigantes sussurram, mas as palavras não fazem sentido, são como um estrondo abafado... Ele anda pelo corredor como uma figura minúscula, olhando para cima, fitando-os. Caminha eternamente naquele corredor, uma sensação de frio, muito frio... de repente ele começa a ver-se de cima, acima dos gigantes, ele vê seu corpo caminhando lá embaixo como se fosse apenas uma sombra arrastando-se sem vontade, quase desistindo. Frio. Solidão.

Lá de cima, ele vê que, já não tão longe, ao fim do corredor, há um grande vale iluminado, com um enorme lago de água límpida. Pessoas sorrindo e conversando encostadas em grandes árvores.  

Ele se desespera, tenta gritar, avisar seu corpo que não desista, mas sua voz não sai, e ele não consegue descer...
A sombra abaixo pára, encostando-se na parede aos pés de um dos gigantes. Adormece.

 Em desespero ele tenta descer, voltar para seu corpo, mas parece acorrentado, ele força, mas é como se sua mente estivesse separada do corpo, ao alto, presa por correntes. Sente dor, mas continua forçando, parece estar conseguindo descer... aproxima-se da sombra, quase tocando...


Abre os olhos, está sentado... Sofá da sala.

Ouve barulho de carros lá fora, pela janela. Levanta, vai até a cozinha, coloca café na xícara. No relógio são 7:00h, pega a chave do carro em cima da geladeira, desce as escadas. 

É um dia ensolarado - no mundo lá fora.

Segue para seu trabalho... Ouvindo um estrondo abafado.



Azyr Maboroshi.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Devaneios em meio a solilóquios...

As sombras daquela noite pareciam mais densas, havia um peso no ar...

Há menos de um minuto atrás tudo estava diferente, era como se em transe a mente fosse transportada para outras dimensões, pulando de momento em momento. Milhões de imagens surgindo, um turbilhão de pensamentos, e é repassado muito rapidamente situações semelhantes, separando e reorganizando para formar novas possibilidades, como se listando os diversos possíveis fins com base em experiências já vividas.

Quando apenas se ouve contar, mas não se visualiza, ou não se tem a experiência na forma que um dos sentidos possa elucidar, algumas coisas são tratadas pela mente como um possível acontecimento, mas que ainda não são merecidos do devido “sofrimento”. Quando, de fato, você tem o contato real, é acionado e colocado em evidência causando desconforto. Algo que você sabia, mas queria acreditar que não estivesse acontecendo, de fato.

(...)

Mesmo com a espada ainda embainhada, ele sabia que seria necessário o corte. Não querer causar o machucado, às vezes, não é o bastante para que não se veja o sangue... O vermelho já estava ali, mesmo que apenas em pensamento, o golpe já havia acontecido.
Sangrando, a batalha continua, e internamente é muito pior quando o sentido real da luta não era por ódio, e que, mesmo entre golpes, havia o sentimento de afeto...

Mas sempre tem o orgulho.

A noite foi longa, e a batalha cheia de decisões. Em meio há tantas ponderações um momento de paz - olhando para o rosto adormecido, nos primeiros raios de sol, querendo que tudo aquilo pudesse ter sido diferente - e a decisão de deixar o momento acontecer... Mesmo sangrando.

Não aceitar um abraço do momento por ter medo de não poder mais tê-los em um dos possíveis futuros, é como estar faminto, ter um pão, mas deixar de comer agora por não ter o que comer depois.


E neste ponto é lembrado as palavras de Marcel Proust:

..."E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mais ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos seu contato com o tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la."




Azyr Maboroshi

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A Ponte

Havia uma ponte, era uma ponte normal, mas chamava atenção pela aventura que sua travessia proporcionava. A ponte sempre esteve lá, pessoas iam até ela, mas ninguém queria ficar, de fato. Era apenas uma passagem, ou uma forma de se aventurar. Nunca foi cruzada até o fim, na verdade, todos imaginavam o que poderia ter do outro lado, mas nunca tiveram a coragem.

Alguns procuravam a ponte para fugirem de suas rotinas, outros, quando bebiam demais, achavam interessante se arriscarem em uma aventura ébria, alguns, até passaram um pequeno tempo ali, mas quando sóbrios, percebiam que a ponte poderia ser um lugar perigoso para suas vidas, e com medo de cruzarem até o fim, logo voltavam por seus caminhos normais.

Com o tempo a ponte deixou crescer árvores e galhos que impedem seu acesso. De longe a paisagem parece cativante, mas impenetrável, agora. Nunca descobriram o que havia do outro lado, quais mistérios aquele lugar guardava, qual seria o verdadeiro sentido da ponte, que quimera vivia do outro lado? ...

O tempo fez a ponte enfraquecer, e cada vez fica mais difícil seu acesso. O lugar que persistia além da travessia foi se apagando, como um sonho que não foi alcançado, e com o tempo, deixa de existir.

Logo, o vazio tomou conta de tudo. E o que nunca existiu, não poderá ser lembrado.

Não há lamento. Vazio. Limpo... Livre.

Azyr Maboroshi