sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Devaneios em meio a solilóquios...

As sombras daquela noite pareciam mais densas, havia um peso no ar...

Há menos de um minuto atrás tudo estava diferente, era como se em transe a mente fosse transportada para outras dimensões, pulando de momento em momento. Milhões de imagens surgindo, um turbilhão de pensamentos, e é repassado muito rapidamente situações semelhantes, separando e reorganizando para formar novas possibilidades, como se listando os diversos possíveis fins com base em experiências já vividas.

Quando apenas se ouve contar, mas não se visualiza, ou não se tem a experiência na forma que um dos sentidos possa elucidar, algumas coisas são tratadas pela mente como um possível acontecimento, mas que ainda não são merecidos do devido “sofrimento”. Quando, de fato, você tem o contato real, é acionado e colocado em evidência causando desconforto. Algo que você sabia, mas queria acreditar que não estivesse acontecendo, de fato.

(...)

Mesmo com a espada ainda embainhada, ele sabia que seria necessário o corte. Não querer causar o machucado, às vezes, não é o bastante para que não se veja o sangue... O vermelho já estava ali, mesmo que apenas em pensamento, o golpe já havia acontecido.
Sangrando, a batalha continua, e internamente é muito pior quando o sentido real da luta não era por ódio, e que, mesmo entre golpes, havia o sentimento de afeto...

Mas sempre tem o orgulho.

A noite foi longa, e a batalha cheia de decisões. Em meio há tantas ponderações um momento de paz - olhando para o rosto adormecido, nos primeiros raios de sol, querendo que tudo aquilo pudesse ter sido diferente - e a decisão de deixar o momento acontecer... Mesmo sangrando.

Não aceitar um abraço do momento por ter medo de não poder mais tê-los em um dos possíveis futuros, é como estar faminto, ter um pão, mas deixar de comer agora por não ter o que comer depois.


E neste ponto é lembrado as palavras de Marcel Proust:

..."E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mais ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos seu contato com o tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la."




Azyr Maboroshi

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