segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Paroxismo

Ele estava sentado, fitando o nada há mais ou menos 4 horas, imóvel. O rádio estava ligado em volume baixo, a TV também, mas não via nada, era apenas como enfeite de fundo. As melodias ressoavam em sua mente de forma suave, misturando-se aos pensamentos num  emaranhado rítmico. Muito rápidos e desordenados os pensamentos vinham de forma intensa, se fundindo aos sentimentos, ansiedade, angústia, tristeza, medo...

Olhando parecia estar em paz, sentado de forma calma e serena, mas sua mente estava fervilhando de pensamentos e emoções, era como se sua forma física bem como o mundo em sua volta fosse algo distante, não real, sua realidade era aquela explosão de pensamentos que ele tentava organizar de forma coerente, buscando em cada canto de suas memórias situações semelhantes, traçando novos caminhos, buscando listar os detalhes que alteravam todo curso dos acontecimentos. Era uma luta silenciosa.

Seus olhos estavam abertos, mas não era com eles que enxergava. A sala em meia luz, com a estante e a TV, o tapete, a janela entreaberta, o sofá encostado na parede... Eram detalhes praticamente invisíveis. Totalmente introspectivo ele mergulhava em um novo cenário - a sala desaparecia completamente e ele começava a cair velozmente em uma total escuridão, volta e meia sendo golpeado por flashes de sua vida, momentos de dor e sofrimento, caindo velozmente. Vazio. Sentia um frio na barriga, aquela ansiedade monstro lhe corroendo, enquanto luzes fortes começavam a piscar rapidamente, ofuscando sua visão, quase cegando-o, golpeado por mais lembranças, momentos de decepção, solidão...

De repente a velocidade da queda reduz, começa a flutuar lentamente em total escuridão. Depois de tantas lembranças dolorosas um estado de dormência lhe abraça, tudo perde o sentido. De olhos fechados apenas flutua, encolhido, no nada.

Depois de certo tempo – desses sem medida, pois não estava mais no mundo real – ele parece despertar. Lentamente vai abrindo os olhos e vê de longe o chão. Parece menos escuro agora. Ele estica os pés para alcançar o solo e consegue tocar o chão suavemente.

Sumindo lentamente a escuridão vai dando lugar a um corredor com paredes enormes de pedra que vão até o céu, entalhado nestas paredes estão formas humanas gigantescas, sem rosto, mas com mantos cobrindo a cabeça, dá para ver as nuvens acima deles, avermelhadas como num crepúsculo. Os gigantes sussurram, mas as palavras não fazem sentido, são como um estrondo abafado... Ele anda pelo corredor como uma figura minúscula, olhando para cima, fitando-os. Caminha eternamente naquele corredor, uma sensação de frio, muito frio... de repente ele começa a ver-se de cima, acima dos gigantes, ele vê seu corpo caminhando lá embaixo como se fosse apenas uma sombra arrastando-se sem vontade, quase desistindo. Frio. Solidão.

Lá de cima, ele vê que, já não tão longe, ao fim do corredor, há um grande vale iluminado, com um enorme lago de água límpida. Pessoas sorrindo e conversando encostadas em grandes árvores.  

Ele se desespera, tenta gritar, avisar seu corpo que não desista, mas sua voz não sai, e ele não consegue descer...
A sombra abaixo pára, encostando-se na parede aos pés de um dos gigantes. Adormece.

 Em desespero ele tenta descer, voltar para seu corpo, mas parece acorrentado, ele força, mas é como se sua mente estivesse separada do corpo, ao alto, presa por correntes. Sente dor, mas continua forçando, parece estar conseguindo descer... aproxima-se da sombra, quase tocando...


Abre os olhos, está sentado... Sofá da sala.

Ouve barulho de carros lá fora, pela janela. Levanta, vai até a cozinha, coloca café na xícara. No relógio são 7:00h, pega a chave do carro em cima da geladeira, desce as escadas. 

É um dia ensolarado - no mundo lá fora.

Segue para seu trabalho... Ouvindo um estrondo abafado.



Azyr Maboroshi.

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